
Já cumpri metade do
que te prometi antes de ires. Tenho saudades tuas, mas não te quero dizer.
Sinto falta desse abraço apertado que me dava força e reconforto quando eu mais
precisava. Esse abraço de tia, de mãe, de avó, mas a cima de tudo, de amiga.
A tatuagem, tem o teu nome e uma rosa sem espinhos para
me lembrar do quão protegida estou e, sempre fui, por ti. Estou feliz, quero
que saibas disso. Ajudas-me todos os dias a relembrar-me daquilo que sou feita. Que os meus sonhos estão cá, dentro de mim e que interessam. Espero que saibas que tenho feito de tudo para te lembrar das melhores
maneiras e de te dar a conhecer àqueles que não tiveram essa sorte enquanto
estiveste cá.
Não tenho nada teu, porque não quis. Guardei o teu batom e o teu perfume
preferido e ando a ler aquele livro que nunca acabaste. Estava onde o deixaste,
naquela mesa redonda, junto à janela. É a segunda vez que o leio, e já ando a
planear a terceira. Faz-me lembrar de ti, do tempo que passamos juntas, das
vezes que te cuidei. E quão irónico é ser um livro sobre alguém que passou pelo
mesmo que tu, sem ter medo de dizer que era cancro. Tal e qual como nós.
Tenho que te pedir desculpa. Peço sempre. Arrependo-me todos os dias de não ter ido aqueles
tratamentos em Agosto. Pediste-me e, eu, por fraqueza ou medo, não consegui.
Sei que era minha obrigação. A tua companheira dos livros devia estar presente
enquanto a radioterapia tomava conta de ti. Para te ler um excerto ou dois do
Miguel Esteves Cardoso ou do Miguel Sousa Tavares, como tu tanto gostavas. Para
te dar a mão e apaziguar a dor.
Fomos felizes todos os dias em que estivemos juntas. No IPO ou em casa, deitadas
no sofá ou na cama, de mãos dadas ou ao colo, com ou sem cabelo, a rir ou a
chorar. Soubemos sempre ser felizes. Enquanto cá estiveste, gozamos e abusamos
da vida, da palavra 'feliz' e do nosso amor.
Só espero que estejas bem e que olhes por mim, como fizeste a vida toda.
Tenho saudades tuas.
Com amor, o teu Solinho.