sábado, 16 de janeiro de 2016

Na saúde e na doença




Já cumpri metade do que te prometi antes de ires. Tenho saudades tuas, mas não te quero dizer. Sinto falta desse abraço apertado que me dava força e reconforto quando eu mais precisava. Esse abraço de tia, de mãe, de avó, mas a cima de tudo, de amiga.
A tatuagem, tem o teu nome e uma rosa sem espinhos para me lembrar do quão protegida estou e, sempre fui, por ti. Estou feliz, quero que saibas disso. Ajudas-me todos os dias a relembrar-me daquilo que sou feita. Que os meus sonhos estão cá, dentro de mim e que interessam. Espero que saibas que tenho feito de tudo para te lembrar das melhores maneiras e de te dar a conhecer àqueles que não tiveram essa sorte enquanto estiveste cá.
Não tenho nada teu, porque não quis. Guardei o teu batom e o teu perfume preferido e ando a ler aquele livro que nunca acabaste. Estava onde o deixaste, naquela mesa redonda, junto à janela. É a segunda vez que o leio, e já ando a planear a terceira. Faz-me lembrar de ti, do tempo que passamos juntas, das vezes que te cuidei. E quão irónico é ser um livro sobre alguém que passou pelo mesmo que tu, sem ter medo de dizer que era cancro. Tal e qual como nós.
Tenho que te pedir desculpa. Peço sempre. Arrependo-me todos os dias de não ter ido aqueles tratamentos em Agosto. Pediste-me e, eu, por fraqueza ou medo, não consegui. Sei que era minha obrigação. A tua companheira dos livros devia estar presente enquanto a radioterapia tomava conta de ti. Para te ler um excerto ou dois do Miguel Esteves Cardoso ou do Miguel Sousa Tavares, como tu tanto gostavas. Para te dar a mão e apaziguar a dor.
Fomos felizes todos os dias em que estivemos juntas. No IPO ou em casa, deitadas no sofá ou na cama, de mãos dadas ou ao colo, com ou sem cabelo, a rir ou a chorar. Soubemos sempre ser felizes. Enquanto cá estiveste, gozamos e abusamos da vida, da palavra 'feliz' e do nosso amor.
Só espero que estejas bem e que olhes por mim, como fizeste a vida toda.
Tenho saudades tuas.

Com amor, o teu Solinho.

8 comentários:

  1. Identifico-me tanto com este texto. Não num todo, mas numa grande parte. Também tenho saudades de alguém que há três anos atrás partiu, tenho pena de não me ter despedido como devia. Na verdade, não estava previsto. Nunca está e, dói sempre.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada pelas palavras. A verdade é que nunca está previsto, temos sempre um pingo de esperança. Nenhuma despedida é suficiente.
      Um beijinho.

      Eliminar
  2. do caraças, é impossível ficar indiferente <3

    ResponderEliminar
  3. Respostas
    1. Bom saber que consegui chegar a ti de alguma forma.
      Obrigada pela tua leitura :)

      Eliminar